Oásis Urbano

Em uma paisagem dominada por lajes secas, telhados verdes despontam como ilhas ecológicas nos topos das casas e mostram que hoje é preciso repensar os conceitos das palavras “construir” e “morar”.

Oasis urbano foto capa

Por Lucas Gandia. Fotos: Flávio Torres. 

Casa embaixo e jardim em cima: essa é a mensagem de ordem do ituano Sérgio Rocha, que desde 2007 tem se dedicado à criação de tecnologias capazes de transformar lajes comuns em verdadeiras ilhas verdes. De barba comprida e pés descalços, o agrônomo de 38 anos, mostra que é possivel, sim, aliar o desenvolvimento da construção civil às causas ambientais. Graduado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pós-graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sérgio teve os primeiros contatos com telhados verdes em 2000, durante pesquisa de campo realizada na Amazônia. Acompanhado da esposa, a ecóloga Fabiana Scarda, ele se surpreendeu com o gramado que revestia a cobertura do galinheiro de um centro de permacultura (sistema de planejamento e execução de ocupações sustentáveis), localizado em Manaus (AM). “Apesar do forte calor que fazia do lado de fora, o interior estava fresco e agradável. Foi aí que começamos a pensar nas utilidades de um telhado e por que ele só era utilizado para nos proteger do sol e da chuva”. A curiosidade do casal acabou se transformando em negócio próprio. Fundado em Itu, o instituto Cidade Jardim tornou-se a segunda empresa do Brasil – e a primeira da região sudeste – a produzir telhados verdes para espaços comerciais e residenciais. “Aprofundamos as pesquisas e constatamos que essa tecnologia já estava consolidada há tempos em países como Alemanha e Dinamarca. A partir daí, passamos a fazer contatos com arquitetos e engenheiros e, um ano depois, já havíamos desenvolvido o protótipo do primeiro produto”, conta Sérgio.

Múltiplas vantagens – Lajes e telhados apresentam condições climáticas semelhantes à de regiões desérticas, pois são espaços áridos, com alta exposição à radiação e à luz solar, ventos constantes e grande variação de temperatura ao longo do dia. Assim, o uso de plantas nas coberturas se destaca por pelo menos três vantagens ambientais: aumento da absorção da água da chuva, o que minimiza os riscos de enxurradas e enchentes; diminuição do impacto do calor no interior da construção em até 70%, o que praticamente elimina a necessidade de condicionadores de ar; e controle da qualidade atmosférica, sequestrando gás carbônico e liberando oxigênio por meio do processo de fotossíntese. Os telhados verdes ainda promovem isolamento acústico nos ambientes, minimizam a formação de ilhas de calor e até mesmo favorecem a biodiversidade local. Além de trabalhar simultaneamente com os três principais eixos de sustentabilidade – água, atmosfera e energia -, os telhados verdes também permitem o melhor aproveitamento dos espaços onde estão instalados. “Você pode transformar um ambiente aparentemente inaproveitável para criar um novo espaço de lazer, como jardim, ou cultivar verduras, legumes e frutas – destaca Sérgio. E engana-se quem acredita que apenas as novas construções podem abrigar as coberturas vegetais. De acordo com o agrônomo, qualquer edificação pode ser adaptada para receber a tecnologia, desde que submetida a uma criteriosa avaliação, realizada em conjunto corn um profissional calculista. “O primeiro passo é calcular o peso que a estrutura da casa pode suportar. A partir desse estudo, pode-se estabelecer a utilidade e as plantas que irão compor o telhado. Chamamos de uso intensivo aquele que se assemelha às funções de uma praça, onde as pessoas podem pisar, correr e brincar. Já o uso extensivo não suporta tanto pisoteio e, na maioria das vezes, é formado por plantas que consomem menos água”, explica. A segunda etapa do telhado verde consiste na impermeabilização da superficie, o que garantirá o correto funcionamento do sistema. Entretanto, Sérgio garante não ser necessário qualquer trabalho além do que já seria realizado em uma laje convencional. “Um telhado verde mal feito pode trazer os mesmos malefícios que um telhado tradicional mal feito, como trincas e infiltrações. O importante é tomar o devido cuidado no inicio do planejamento. Tudo depende da estrutura da obra e da qualidade do serviço realizado. Se for bem feito, pode ter até um gramado para jogar futebol ou uma mangueira plantada no telhado” , argumenta o agrônomo. Sérgio ainda observa que, quando protegida das intempéries pelo jardim, a impermeabilização chega a durar até três vezes mais que nas coberturas convencionais. “Apesar de ter um custo inicial maior, o telhado verde evita uma série de gastos como consumo de eletricidade, refrigeração e manutenção. Não podemos esquecer que, além de ser um investimento em longo prazo, trata-se de uma tecnologia capaz de transformar a paisagem urbana e trazer vários beneficios ao meio ambiente”, enfatiza. “A ideia é que, quando começarmos a trabalhar em escala maior de produção, diminuiremos os valores, tornando o sistema mais popular e acessível”. Comparada a outras tendências da arquitetura sustentável, como os jardins verticais – em que plantas são instaladas nas paredes de prédios e casas, os telhados verdes se destacam pela fácil conservação. Dependendo das condições climáticas e das especies utilizadas, o sistema pode sobreviver apenas com a água das chuvas. “O segredo é a composição correta do sistema, prestando atenção em aspectos como drenagem, armazenamento hídrico, aeração, substrato de cultivo e plantas – ressalta.

Referência nacional – Apesar de ser uma empresa jovem, o lnstituto Cidade Jardim já é considerado referência nacional no segmento. Em sete anos de atuação, os empresários de Itu já somam mais de 80 mil m2 de telhados Verdes instalados por todo o país. Entre os clientes, destacam-se os proprietários de espaços corporativos (shoppings centers, galpões comerciais e fábricas) e de residências de médio a alto padrão. Na nossa região, chamam atenção os trabalhos realizados nos condomínios Terras de São José, Fazenda Vila Real, Plaza Athénée e Quinta da Baroneza. Fora de São Paulo, destaques para as coberturas instaladas no Centro de Pesquisas em Geoengenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no shopping carioca Village Mall, da Barra da Tijuca. “Como o anfiteatro deste centro comercial tem o pré-direito baixo, seria necessário um investimento muito alto para garantir a refrigeração e um isolamento acústico de qualidade. Com o telhado verde, resolvemos esses dois problemas de uma única vez”, explica. Contrariando o ditado popular “em casa de ferreiro, espeto é de pau”, é válido considerar que o mais significativo trabalho do Instituto Cidade Jardim talvez esteja localizado na própria residência de seus fundadores, onde funciona o escritório central da empresa. Orgulhoso, o casal faz questão de enfatizar a funcionalidade dos 100 m2 de telhado verde que possui em casa. “A garotada adora brincar e fazer piquenique no gramado. Já na horta, cultivamos couve, cenoura, pimenta, tomate, hortelã, uva e morango, dentre outras coisas”, conta o agrônomo.

Oasis urbano foto final

Desafios – Apesar de a construção civil caminhar cada vez mais em direção aos prin- cipios da sustentabilidade, Sérgio acredita que o mercado ainda oferece certa resistência às novas tecnologias, sobretudo devido à falta de informação. “Muitas das dúvidas são elementares e mostram que realmente há pouco conhecimento sobre as construções ecológicas afirma. Mesmo otimista em relação ao futuro do segmento, o ituano ressalta que o cenário poderia ser diferente se houvesse um estímulo maior por parte do poder público. “Alguns países da Europa já oferecem descontos nos impostos dos moradores que possuem telhados verdes, pois a administração pública já entende que está economizando gastos decorrentes de enchentes com os moradores dessas casas. Ao invés de desapropriar grandes áreas para fazer um piscinão, as prefeituras poderiam incentivar a criação de telhados verdes em áreas bem planejadas, como topos de morros e beiras de rios. Desta forma, seria possivel reter a poluição e reduzir a velocidade com que a água da chuva chega à rede coletora”. Para que as construções sustentáveis ganhem espaço nas cidades, Sérgio Rocha aposta no diálogo entre governos e população, em que a palavra de ordem seja incentivo: “Projetos de lei que prezam pela obrigatoriedade seguem um caminho equivocado, pois nivelam por baixo a qualidade do material e do serviço. Se o construtor for obrigado a investir em uma tecnologia sustentável, ele provavelmente vai optar pelo serviço mais barato, apenas para obter a aprovação do imóvel. O ideal é que haja incentivo, por meio de descontos nos impostos de quem investe na sustentabilidade. Em grandes galpões e shoppings o abatimento do IPTU seria bastante significativo. Temos que chamar a população para jogar a favor do nosso time, e não contra”, arremata o agrônomo. Enquanto as gestões públicas não compreenderem que as tecnologias sustentáveis são poderosas ferramentas de transformação urbana, os telhados verdes seguirão funcionando como oásis em meio a paisagens de lajes secas. No futuro, quem sabe, olhar para cima também será um gesto de contemplação à natureza.

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Publicado originalmente na edição especial da Revista Terraço.

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