Urbanismo paisagista: o desafio da implementação

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Com um número suficiente de projetos de telhado verde ou de drenagem profunda feitos por proprietários individuais, podemos tornar nossas cidades lugares mais agradáveis de se viver e mais compatíveis com os ecossistemas que elas integram.

Urbano versus rural, arquitetura versus paisagem, homem versus natureza – essas dicotomias de design parecem ter sido bem aproveitadas por profissionais. Não apenas são construtos intelectuais úteis que datam do tempo de Adão e Eva, mas também ferramentas regulatórias efetivas. Ao definir campos de autoridade de maneira compreensível, permitem que projetos complexos sejam financiados, aprovados e construídos de modo organizado.

Mas os praticantes do urbanismo paisagista questionam se essas distinções continuam a fazer sentido numa era de recursos limitados e ameaças ambientais, sugerindo que podemos criar abordagens mais sustentáveis ao desenvolvimento, enfatizando as relações entre sistemas ecológicos e construção urbana. E dizem que ninguém é mais bem equipado para destilar uma direção de design a partir desses padrões fluidos que os arquitetos paisagistas. Contudo, o reconhecimento das interconexões ambientais desafia não apenas a hierarquia usual do arquiteto no topo, mas também as linhas de propriedade e os setores regulatórios que definem como projetamos e construímos.

Chris Reed, fundador da Stoss Landscape Urbanism, de Boston, diz que não há escolha. “Precisamos fazer mais com menos. As cidades e os órgãos públicos têm sede de propostas que promovam agendas múltiplas. Espaços abertos flexíveis e produtivos que purifiquem água, gerem energia, estruturem o desenvolvimento, criem novos habitats e se adaptem às mudanças climáticas serão a única solução para administradores públicos que comandam verbas limitadas.” Mas Reed reconhece que converter ideias ousadas em realidades de construção viável exige um compromisso com a pesquisa e a experimentação, além de uma estrutura de governança que respalde propostas ambiciosas.

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Por baixo das formas fluídas e das paisagens pastorais da High Line em NY, há uma enorme quantidade de esgotos, tubulações, cabos e vigas que fazem tudo funcionar.

Para reforçar sua presença na academia e fora dela, o urbanismo paisagista desenvolveu uma linguagem evocativa para comunicar suas aspirações. E, como é o caso da maioria dos “ismos” da área do design, ele emprega uma família de formas para sugerir metaforicamente como essas aspirações podem ser implementadas. Curvas amplas, fios contínuos e planos dobrados representam o tipo de sistemas dinâmicos que os urbanistas paisagistas querem canalizar, com projetos icônicos como o High Line de Manhattan (um parque no West Side de Nova York criado sobre uma antiga linha de trem elevada) oferecendo visuais sedutores. Mas, sem o fluxo interminável de financiamento por parte da alta sociedade com que contou o High Line, podem os princípios de design integrado do urbanismo paisagista sobreviver num mundo em que é preciso apresentar resultados concretos?

Shauna Gillies-Smith, da Sociedade Americana de Arquitetos Paisagistas e da Ground Inc., empresa de paisagismo de Somerville, diz que uma série de melhorias incrementais pode somar-se e resultar em mudanças significativas, especialmente em ambientes urbanos densos. “Com um número suficiente de projetos de telhado verde ou de drenagem profunda feitos por proprietários individuais, podemos tornar nossas cidades lugares mais agradáveis de se viver e mais compatíveis com os ecossistemas que elas integram.” Mas ela ressalta que talvez sejam necessários incentivos de zoneamento ou subsídios monetários para chegar a um limiar crítico em que seja possível garantir um retorno público sobre investimentos do setor privado.

Para melhor ou para pior, burocracias tremendas se interpõem entre mesmo a mais benévola das visões e sua concretização. Numa democracia, é preciso apoio público para a adoção de iniciativas econômicas ou de desenvolvimento, e o público não fala com voz unificada. Os órgãos reguladores moderam os debates e procuram um terreno comum.

Ben Lynch, chefe de programa do Programa de Regulamentação de Vias Hídricas do Departamento de Proteção Ambiental do Massachusetts, lida diariamente com as exigências progressistas do Estado em relação à construção em áreas de frente para rios ou o mar. “Regulamentos e incentivos são ferramentas brutas”, ele admite. “Se o setor público quer que o setor privado pague por melhorias infraestruturais e quer que os atores privados não vão à falência, será um desafio manter a fidelidade à agenda paisagista, porque há tantas exigências que precisam ser levadas em conta simultaneamente.”

Embora a agenda paisagista esteja na vanguarda da política de uso da terra, muitas de suas aspirações estão enraizadas nas práticas padronizadas de engenheiros e burocratas. Fred Yalouris, diretor de arquitetura e design urbano do Projeto de Artéria/Túnel Central de Boston, o chamado “Big Dig”, diz que o projeto maciço de “sepultamento” de uma rodovia estava sintonizado com os preceitos do urbanismo paisagista. “Um quinto da verba de US$15 bilhões do projeto foi destinado à mitigação, desde a criação de 46 parques até mais de US$1 bilhão para o trânsito em massa. Nos livramos da rodovia elevada e enferrujada e plantamos mais de 20 mil árvores, além de hectares de gramados e jardins. Áreas não pavimentadas, para absorver a chuva, e agricultura urbana sempre podem ser acrescentados, como a cobertura de um bolo bastante sustentável.”

A linguagem inspiradora e as formas convincentes do urbanismo paisagista evocam de modo poético uma maneira mais sustentável de construir. Mas, para que possam ser implementados seus ideais formais e práticos, eles precisam ser atrelados a um conjunto de ferramentas mais prosaicas, como os códigos de construção, regras de zoneamento e cálculos de engenharia. Se quiserem que as soluções de design sustentável não se limitem ao corriqueiro, os criadores precisam trabalhar com cientistas, sociólogos e engenheiros, sem falar nos burocratas e contadores. A tendência a deixar que formas poéticas se tornem declarações isoladas corre o risco de deixar a cargo de outros o trabalho prosaico de efetuar transformações reais.

Autor: David Eisen
Arquiteto-chefe da Abbacus Architects
Publicado no Blog Brasil Post em 11/06/2014 a partir do artigo publicado originalmente pela Sociedade de Arquitetos de Boston.

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