Uma cidade sustentável pode começar pelo telhado.

Ecológico até o topo

Um sistema para ser considerado sustentável deveria acumular ao longo de sua vida útil mais energia do que a utilizada para produzi-lo. O mesmo se aplica a um produto. Tudo no mundo que utiliza produtos derivados de petróleo ‘des-sequestra’ o CO2 que estava armazenado a milhões de anos no fundo da Terra e devolve esse material para a atmosfera – aumentando o efeito estufa e agravando as mudanças climáticas.

Então o que fazer, se praticamente nada do que consumimos preenche os requisitos acima? Enquanto as questões do desmatamento e emissões de gases de efeito estufa não são solucionadas, nas cidades deveríamos priorizar na ADAPTAÇÃO dos eixos estruturais de consumo de (1) energia, (2) ar, (3) água e (4) alimento, e entender que é preciso modificar profundamente a infra-estrutura urbana para que esses fluxos sejam rearranjados, sejam menos vulneráveis e tenham um balanço menos negativo – quero dizer, a impermeabilização urbana, o efeito de ilhas de calor, abastecimento e o transporte rodoviário tem impacto fundamental no equilíbrio destes (e outros) eixos de sustentabilidade. Locação urbana, revestimentos/pavimentação, drenagem. Sim, o design ajuda a criar um projeto de cidade sustentável. Design pois devemos repensar que outras utilidades possíveis podemos dar as principais áreas causadoras de problemas nas cidades. Se o problema é a solução, então… qual a utilidade de um telhado?

A solução está em criar condições para a regeneração da vida diretamente na causa do problema – cobrir com vegetação o máximo de superfícies urbanas abandonadas (incluo aí qualquer telhado ou laje) para que ao invés de acumular calor e poeiras passem a participar positivamente no balanço do clima de uma região. Obviamente não imagino forma melhor para se começar a construir uma cidade sustentável do que cobrir com vegetação qualquer superfície exposta ao sol – energia que passa a ser convertida positivamente para a cidade. Pensando em um programa de bio-regeneração urbana, isso pode ser maximizado com a escolha de regiões chave, formando uma rede de ilhas / corredores de biodiversidade e zonas de retenção de enchurradas. Há espaços de difícil acesso que precisarão selecionar combinações de espécies de plantas que permitam uma cobertura vegetal ativa ao longo de todas as estações do ano, demandando o mínimo possível de água e energia para sua manutenção. E para ser sustentável a revegetação em grande escala nas cidades também deveria ser pensado para ser zero dependem de agrotóxicos e combustíveis fósseis para sua produção, armazenamento e distribuição.

– um único telhado verde extensivo (com menos de 9cm de estrutura de cultivo) e de médio porte (cerca de 200m2) armazena 7 mil litros de água e seqüestra aproximadamente 1 tonelada de CO2.

– o mesmo telhado verde em uma área de 10.000m2 de telhados verdes (um campo de futebol ou um supermercado) armazenaria 330 mil litros de água e retiraria da atmosfera cerca de 50 toneladas de CO2. Pensando-se em comida, esse telhado de supermercado pode produzir  3 safras de grãos por ano, com potencial para mais de 30 toneladas de trigo, arroz, milho, feijão. Além de hortaliças, verduras, legumes, etc.

A Prefeitura de São Paulo não possui dados sobre a área ocupada por telhados no município. Com base nas estimativas adotadas pela GBC Brasil, os telhados ocupariam 381 km2 – 25% da cidade de São Paulo, que tem uma aérea total de 1.523 km2. Assim, o uso de coberturas brancas poderia compensar cerca de 38 milhões de toneladas de gás carbônico ao ano (http://economia.ig.com.br/lei-do-telhado-branco-custara-cerca-de-r-380-milhoes-a-sao-paulo/n1597009588177.html). A mesma área cultivada com 38.100 ha de telhados verdes extensivos poderia sequestrar mais 2 milhões de toneladas de carbono, armazenar 12,5 milhões de metros cúbicos de água por evento de chuva, além de prover diversos outros serviços ambientais.

Obviamente a revegetação de cidades não terá um peso percentual relevante na redução das taxas de CO2 da atmosfera de todo o planeta, mas terá um papel de alta relevância na adaptação  e melhoria de de qualidade de vida nas cidades (p.ex. redução de enchentes, aumento de umidade relativa). Diversas cidades já estão implementando mecanismos para subsidiar a adoção de telhados verdes, como o selo Qualiverde no Rio de Janeiro (http://www2.rio.rj.gov.br/smu/compur/pdf/proposta_qualiverde.pdf).

Podemos pensar em superfícies com revestimentos vivos extensivos, que demandam baixíssimo gasto de energia para manutenção, consomem pouca água e podem ser cultivados sem agrotóxicos. Mas podemos pensar também em espaços verdes suspensos que funcionem realmente como praças, com espaços de contemplação e que regulam o clima de regiões e bairros inteiros na cidade. Podemos ainda ir além, com hortas domésticas em varandas, lajes e coberturas, o que abre a possibilidade de agricultura e horticultura intensiva DENTRO das cidades, nos próprios centros de distribuição, processamento e venda – um restaurante, um hospital ou um supermercado. E isso pode estar conectado a programas de coleta seletiva e compostagem, o que reduziria o acumulo de lixo nos aterros sanitários – lixões e ‘de quebra’ diminui a demanda de importações de fertilizantes.

Para a cuidar de um jardim do tamanho de uma cidade, vamos precisar de uma nova geração de jardineiros.

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