Imagine três porquinhos…

O primeiro tinha um pouco de dinheiro e, de posse de informações privilegiadas, resolveu criar sementes estéreis em laboratório, para que no futuro dominasse a indústria de alimentos no mundo. Com o dinheiro que ganhou vendendo-as para os países em desenvolvimento, resolveu investir em um mundo melhor e começou a testar vacinas em porquinhos carentes pelo mundo.

O segundo sempre achou que tudo isso era uma bobagem, mas como pensou que as mudanças climáticas poderiam ser realmente um problema no futuro, por via das dúvidas quis ajudar a reduzir o aquecimento global e construiu uma casa de madeira certificada, captou água da chuva e fez uma horta no telhado, com um pé de boldo e uma bananeira – e dorme com a consciência tranqüila.

O terceiro viu rapidamente no telejornal que o mundo estava em pânico, pois enfrentaríamos uma “crise alimentar”, mas como na seqüência viu os gols da rodada, achou melhor assistir a novela, um filminho durante o jantar e ir descansar, pois tinha que trabalhar cedo na manhã seguinte – afinal alguém tem que trazer o leitinho das crianças…

Aí chegou o lobo mau.

Assoprou chuvas de granizo, seguida de secas prolongadas e alta no preço do petróleo, derrubando a casa do pobre porquinho desprevenido, que acreditava no telejornal, mas só percebeu que não havia mais comida quando já estava com fome. Boa parte de sua família morreu de inanição ou foi devorada pelo lobo, mas com muita astúcia e rapidez, alguns conseguiram escapar das garras do lobo e invadiram a casa do seu vizinho, cético, que não gostou nem um pouco no início, mas como um pouco mais de gente para fazer o trabalho pesado não ia ser nada mal, resolveu que não iria chamar a polícia.

Desta vez quando o lobo chegou, assoprou lampádas de tufões, frio e calor extremos, ressecando a terra já castigada pelo desmatamento excessivo – o que descambou para uma escassez prolongada de água. A casa do cético estava até que bem preparada – tinha água estocada, paredes grossas de pilão em terra, produzia pequena quantidade de grãos para carboidratos, uma pequena granja de aves para proteínas, um batalhão de painéis solares em um telhado com uma horta colorida, para um bom equilíbrio no fornecimento de vitaminas e energia. O problema é que, ao contrário de todos os prognósticos, a seca prolongou-se por mais dois meses consecutivos e o fornecimento de água não voltou a ser como antes… passaram a promover um racionamento de água com incômoda freqüência, mas afinal, todos entenderam e colaboraram com a campanha.

Como a chuva não vinha em volume necessário, os reservatórios públicos e particulares não se restabeleceram, forçando os porquinhos a saírem de casa para buscar água em um açude um pouco mais distante. Era a deixa para o lobo mau, que invadiu a incrível casa e a despeito de toda tecnologia, fez um estrago gastronômico e devorou toda a família dos porquinhos. Só se salvaram os que haviam saído para buscar água, que ao verem aquela barbárie, fugiram para pedir ajuda ao porquinho bem informado.

O problema é que não conseguiram nem chegar perto da casa do vizinho. Todo o terreno no entorno fora cercado com muros altos de tijolo, com cerca de arame farpado e fios eletrificados, tudo isso com alarme de sirene e conectado a uma central 24hs de inteligência em segurança particular armada. Como eles não tinham a identificação para entrar, foram barrados na portaria e tiveram que tocar o interfone e pedir para chamar o seu vizinho, porquinho bem informado. Depois de 45 minutos de espera foram avisados que ele havia saído e estava em férias em uma colônia de sobrevivência… Como não puderam entrar, foram ali mesmo devorados pelo lobo.

A casa do porquinho bem informado ficou bem guardada por seis meses. Mas a crise se prolongou e foi invadida pela própria tropa de seguranças, que trouxeram suas famílias e criaram uma vila até certo ponto auto-suficiente. A falta d’água causou grandes perdas agrícolas e o preço das comodities subiu às alturas. Diversas seguradoras não puderam cobrir a falta de crédito, causando uma quebradeira geral nas bolsas de valores e fazendo com que os investidores tirassem seu dinheiro do mercado, estourando a bolha imobiliária e despencando em desemprego em massa. Uma onda de violência se alastrou pela cidade, já que os empregos não valiam mais a pena e cada um tinha que garantir o seu.

Mas ainda haviam as sementes, que apresentavam índices cada vez maiores de esterilidade. Os agricultores sempre colheram as suas safras, comercializando uma parte e guardando outra para ser semeada no próximo ano. O problema é que agora essas sementes já não germinavam como antes. Com o advento da transgenia, os porcos inseriram no reino vegetal um dispositivo genético que impede germinação das sementes cultivadas – essa foi a estratégia das grandes indústrias para garantirem o direito de patente sobre suas criações. Prometeu-se maiores safras, com menor consumo de agrotóxicos, maior facilidade de manejo, menores custos – o futuro sustentável era agora e estava ali, ao alcance das mãos, na prateleira. A indústria agrícola entendeu o recado e hoje 75% da soja plantada já é estéril, o que garantirá bons lucros para os laboratórios que fabricam as sementes.

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