Megacidades buscam saídas para enfrentar mudanças climáticas

O secretário-executivo do C-40, Simon Reddy, afirmou na semana passada ao Jornal Valor Econômico que as grandes cidades precisam investir urgentemente em adaptação e destaca o papel dos telhados verdes no combate as ilhas de calor. Veja abaixo a entrevista na íntegra, disponibilizada no site do Ministério do Planejamento do Governo Federal.

Autor(es): Daniela Chiaretti | De São Paulo

Valor Econômico – 11/04/2011

Tóquio tem 33 milhões de habitantes e só perde 3,5% da água tratada em vazamentos na rede- em Londres, esse índice é de 25%, e a média das cidades brasileiras é de espantosos 39%. Estocolmo recebe quem chega ao aeroporto tanto com táxis “verdes” como com os tradicionais a diesel – o cliente escolhe o que quer, o preço é o mesmo. No centro de Toronto, o consumo de energia com ar-condicionado vem sendo substituído por um sistema que opera a partir das águas geladas dos Grandes Lagos. São Paulo transforma lixo em energia e poucas cidades do mundo fazem o mesmo. A troca de bem-sucedidasexperiências sustentáveis entre as 40 maiores cidades do mundo reunirá prefeitos em evento em São Paulo, entre 31 de maio e 3 de junho. A cúpula dessa edição da C-40, como se chama a organização por trás do encontro, será presidida por Michael Bloomberg, o prefeito de Nova York.

O que dá liga entre as 40 megacidades é o compromisso de reduzir emissões de gases-estufa e adaptar aos impactos da mudança do clima. A rede de prefeitos foi criada em 2005, pelo então prefeito de Londres Ken Livingstone, com este mote. Os políticos se reúnem a cada dois anos e nos intervalos há workshops sobre megaproblemas de interesse comum – lixo, transporte, construções, água, energia. “São Paulo é uma ótima cidade”, surpreende Simon Reddy, ecologista de formação com mestrado em biologia marinha e secretário-executivo do C-40. “As pessoas são amigáveis, a diversidade é enorme e a comida é maravilhosa” elogiou, em sua quinta visita à cidade, na semana passada. Entre reuniões para preparar aedição paulista do C-40, Reddy falou com exclusividade ao Valor sobre problemas comuns e possíveis soluções para as megacidadades, lembrando uma frase de Livingstone: “Nós todos podemos ser pioneiros, mas podemos fazer as coisas muito mais rápido se roubarmos as ideias uns dos outros.” A seguir, trechos da entrevista:

Valor: Um dos pesadelos de São Paulo é o trânsito. O senhor recomenda algo?

Simon Reddy: Todas as cidades têm problemas de trânsito, mas cada cidade é diferente da outra e precisa decidir qual a melhor política a adotar. O leque de soluções abrange melhorias nas redes de transporte público, limitar os espaços de estacionamento, taxas para a circulação de carros em algumas áreas. O objetivo do C40 é reunir os representantes das cidades para trocar experiências sobre este tipo de iniciativas. Assim, cada um pode decidir o que funciona no seu caso.

Valor: Há exemplos concretos?

Reddy: Trabalhamos, por exemplo, com cidades que estão criando sistemas de transporte de ônibus híbridos, que podem andar com diferentes combustíveis combinados e tecnologias mistas. Alguns têm baterias que são recarregadas pelos próprios motores. São Paulo tem a experiência dos ônibus a etanol.

Valor: Aqui a política de transportes emite sinais ambíguos. São Paulo bate recorde em número de carros nas ruas e os congestionamentos são inacreditáveis.

Reddy: O C40 não prescreve o que cada cidade deve fazer porque cada uma é diferente e cada prefeito trabalha à sua maneira. Nunca fui a uma cidade sem problema de trânsito, São Paulo não é a única. E não há bala mágica para isso.

Valor: Outro drama são as inundações. Alguma sugestão?

Reddy: Esse é outro grande problema de outras cidades. Melhorar o sistema de drenagem pode ajudar muito. Mas aumentar o número de parques e faixas verdes. permitindo que a água se infiltre no solo, é algo que também pode reduzir enchentes.

Valor: Como funciona o C-40?

Reddy: Facilitamos o contato das cidades com a melhor tecnologia experimentada por outras no mundo. Londres, por exemplo, tem cem edifícios sob a administração pública, como prédios da polícia e do corpo de bombeiros, que estão em programas de modernização, eficiência energética e redução de consumo. Isso não só vai reduzir as emissões de gases-estufa da cidade, como diminuir a conta de energia. Los Angeles está trocando toda a sua iluminação de rua para lâmpadas LED, que são muito mais eficientes. O programa deles para os próximos sete anos, quando estiver concluído, irá reduzir as emissões de gases-estufa da cidade em mais de 40 mil toneladas e economizar US$ 10 milhões ao ano na conta de luz.

Valor: Essas experiências são trocadas durante as cúpulas como a que São Paulo irá sediar?

Reddy: A cada dois anos fazemos as cúpulas, onde reunimos prefeitos e planejadores urbanos. Entre ascúpulas fazemos workshops, às vezes quatro ou cinco em um ano, com temas que interessam às cidades. Nesses eventos, os especialistas e prefeitos falam sobre suas experiências, não só tecnológicas, mastambém de gerenciamento. Cada um diz o que está fazendo e assim é possível aprender pelo exemplo. São Paulo pode mostrar como capta gás em seu aterro sanitário e produz energia a partir dele, deixando de lançar gases-estufa para a atmosfera. Muitas cidades do C40 não têm isso. Estocolmo tem um sistema integrado de gerenciamento de lixo, um caminho que São Paulo pode trilhar no futuro. Estocolmo, Copenhague e Amsterdã têm experiências interessantes com biodigestores,

Valor: Há bons exemplos de adaptação à mudança do clima?

Reddy: Temos exemplos de cidades que tentam reduzir o efeito das ilhas de calor. Onde há muito concreto e asfalto, a temperatura média pode ser 4°C mais alta em algumas áreas em relação a outras. Ascidades buscam medidas para reduzir esse efeito, como telhados verdes nas casas ou corredores de água. Seul reabriu recentemente um rio, que havia sido canalizado no passado, e onde havia uma avenida de seis pistas, no centro de seu distrito financeiro. Eliminaram a rua, abriram o rio de novo e conseguiram baixar a temperatura ambiente em 2 a 3 graus, porque o rio leva o calor embora. Há iniciativas de plantar mais árvores, abrir mais parques e espaços verdes, esforços que sei que vocês têm feito em São Paulo também. Não só reduzem o calor, mas criam novos espaços de lazer e facilitam a absorção de água, evitando as enchentes.

Valor: Como cidades carentes podem financiar essas iniciativas?

Reddy: Temos workshops de capacitação, para que as pessoas que administram as cidades entendam os mecanismos de financiamento ligados a carbono e quais possibilidades existem. Estamos trabalhando com um projeto do tipo em Jacarta (Indonésia) e outro em São Paulo, com o lixo das favelas de Heliópolis eParaisópolis.

Valor: Como lidar com a urgência do desafio da mudança do clima? Novas tecnologias, como carros elétricos, são ainda muito caras.

Reddy: Os elétricos são muito caros agora, mas isso está mudando rápido. Há cinco anos sequer tínhamos a tecnologia e passamos de carros que podiam rodar apenas 20 a 30 km para os que andam 200 km. Os preços vêm caindo. Existem arranjos com governos nacionais que os tornam atraentes. No Reino Unido, por exemplo, o governo concede 5 mil libras (o equivalente a R$ 13 mil) do custo de um veículo elétrico, para dar impulso ao projeto. Em cinco anos vamos ter infraestrutura de recarga e mais carros elétricos circulando em nossas cidades. Isso irá reduzir as emissões de gases-estufa e melhorar muito a qualidade do ar.

Valor: O senhor viu bons exemplos de uso de energia solar?

Reddy: Não focamos tanto em renováveis, porque temos muito o que fazer com a infraestrutura já existente. Na gestão das cidades, nosso foco está nas edificações e no transporte, duas áreas-chave. Podemos trabalhar com parques, iluminação pública, trânsito, lixo, eficiência energética e construções. Construções são responsáveis por cerca de um terço das emissões de gases-estufa, transporte é outro terço. Esses são os grandes setores urbanos onde podemos fazer reduções.

Valor: Nas cidades brasileiras não aquecemos quase as casas. Transporte é o problema.

Reddy: Mas vocês precisam esfriá-las. O Brasil tem matriz energética limpa, de base hídrica, mas há um limite de quantas hidrelétricas se pode ter. Se as pessoas continuarem a usar energia de maneira não eficiente, vocês atingirão sua capacidade de gerar energia hídrica, e então, o que farão? Vão investir em usinas a carvão ou irão tornar mais eficiente seu consumo e o jeito de refrescar as casas e edifícios?

Valor: O C40 trabalha com saúde pública e mudança do clima?

Reddy: Não muito, mas isso é algo que vai mudar. Saúde e mudança climática é um tema emergente e importante. Doenças como dengue começam a se mover para novas áreas, leptospirose é um drama nasinundações. Se isso tem a ver com o aquecimento global, são claros impactos que os gestores vão ter que enfrentar.

Valor: Individualmente as pessoas se perguntam o que podem fazer para ajudar no problema da mudança do clima. O que sugere?

Reddy: O público precisa reconhecer que mudança climática é assunto importante, exigir que os governantes ajam e apoiar prefeitos quando julgarem que estão fazendo algo em benefício da cidade e na redução de gases-estufa. Encorajá-los se conduzirem a cidade na direção de um futuro sustentável. É algo em duas vias: a cidade tem que explicar o motivo de estar gastando dinheiro público em determinada direção e as pessoas, se quiserem se envolver com o assunto, podem também refletir sobre a forma como se movimentam, se usam transporte público, se podem consumir menos energia.

Valor: Há medidas politicamente difíceis, como restringir a circulação de carros, por exemplo.

Reddy: Sim, e talvez por isso Ken Livingstone não se reelegeu. As pessoas não gostaram da sua taxa paralimitar a circulação de carros no centro de Londres. O novo prefeito reduziu a medida, mas ela ainda existe e custa 10 libras (R$ 25,80) por dia. Estocolmo também tem uma taxa assim. Nova York tentou também, mas a iniciativa foi barrada.

Valor: Viajando pelo mundo o senhor viu boas iniciativas que são simples de implementar?

Reddy: Sim, muitas ideias interessantes. Em Toronto, os prédios da área central não são resfriados com ar-condicionado, mas com um sistema que funciona a partir da água fria dos Grandes Lagos. Em Copenhague fazem algo parecido usando a água do mar. No aeroporto de Estocolmo há dois tipos de táxis, o “verde” e outro normal. O cliente faz a escolha entre um táxi que normalmente é híbrido ou o que funciona a diesel. O preço é o mesmo. Em Seul, há dias livres de carros quando as pessoas são incentivadas a deixarem o seu em casa e recebem vouchers ou estacionamento livre em outro dia, parausarem mais transporte público. Em várias cidades há iniciativas para que se ande mais a pé ou de bicicleta. Em Paris, Londres, México, Barcelona há bicicletas que se alugam com cartão de crédito e basta usá-las e deixá-las em outro bicicletário.

Valor: Em Berlim, os moradores podem alugar carros para ir ao supermercado, levar as compras paracasa, pagar pelas duas horas de uso no cartão de crédito e deixar o carro de volta onde o apanharam.

Reddy: Sim, o “Streetcar”, em Londres também existe, você paga 5 libras por hora (R$ 13). Há outrascidades usando este sistema. Tem muitas iniciativas inteligentes por aí. Não vão fazer grande diferença em termos de balanço de gases-estufa, mas são importantes em termos de comunicação com o público.

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