Enverdecimento Urbano: Uma Antítese ao Aquecimento

Artigo originalmente publicado na revista aU | Arquitetura e Urbanismo número 167.

POR JÖRG SPANGENBERG

Antítese da mata selvagem, a “selva de pedra” – construção humana, coletiva, artificial – revela em uma primeira vista a forte contradição entre a cidade e a natureza. De fato, a integração da natureza e da construção traz alguns problemas práticos, técnicos e estéticos. A vegetação protege. Mas também esconde, encobre, causa estragos. Não é à toa que, para um grande número de arquitetos, a natureza – e, na sua versão urbana, a vegetação – é impopular. Ela cria uma atmosfera suspeita, aumenta a sensação de risco, gera custos, coloca obstáculos às construções. A ponto de um vencedor do Pritzker, Paulo Mendes da Rocha, declarar que “a natureza é uma droga, não serve para nada, é um trambolho”, em entrevista à revista Caros Amigos.

A análise de temas contemporâneos e urgentes, como a sustentabilidade e o aquecimento global, abre um novo olhar sobre a paisagem urbana. Uma mudança de paradigma revela que os benefícios reais da vegetação ultrapassam os supostos problemas levantados. Se houver bom planejamento e eficiente gestão dos investimentos, os custos de manutenção de árvores em áreas urbanas serão muito inferiores aos benefícios econômicos que geram para todos. Sem descartar os crescentes benefícios climáticos que podem trazer no futuro.

Problemas ambientais e climáticos da Metrópole
O cientista inglês James Lovelock recentemente lançou um alerta aos povos que vivem em áreas tropicais do planeta. “Pelas minhas estimativas, a situação se tornará insuportável antes mesmo da metade do século. Lá pelo ano 2040, a maioria das regiões tropicais, incluindo praticamente todo o território brasileiro, será demasiadamente quente e seca”, disse ele à revista Veja, em 2006.

Torcendo para que Lovelock esteja enganado, os primeiros lugares a serem abandonados por conta das mudanças climáticas e da perda da qualidade de vida, serão as cidades. Núcleos da produção, berços da cultura urbana e das finanças. A sobreposição dos efeitos climáticos globais e locais transforma as cidades – sob o clima tropical – em verdadeiras “ilhas de calor”. E traz consigo, em seu ritmo cada vez mais acelerado, problemas ainda muito mais graves, tais como desconforto, desigualdade socioambiental, aumento de estresse térmico, aumento de consumo e dos custos de energia para o resfriamento de imóveis e de automóveis. Enfim, prejuízos crescentes para a economia e para o desenvolvimento (sustentável) das cidades localizadas em regiões de clima predominantemente quente.

Embora as áreas urbanas no Brasil representem apenas 2% do território nacional, mais de 80% dos brasileiros moram nesses gigantes hot spots. Dentro do município de São Paulo, as medições de temperatura do ar já mostram diferenças de até 12ºC entre o centro urbano e seu entorno rural distante. Isso significa o dobro do previsto nas mais pessimistas estimativas sobre as mudanças climáticas globais. Segundo estudo da Sociedade Brasileira de Meteorologia, divulgado em abril de 2007, a temperatura da cidade de São Paulo subiu, em quase um século, o triplo do observado na média mundial. O trabalho foi realizado a partir da análise de médias históricas anuais.

Causa local: o uso do solo
A construção desordenada de metrópoles, com materiais e geometrias não-adaptados segundo aspectos climáticos, trouxe um desequilíbrio imprevisto ao bem-estar urbano. A impermeabilização do solo em conjunto com o desmatamento resultou em um baixíssimo percentual de cobertura vegetal. Como conseqüência, ocorreu o aquecimento local das superfícies urbanas. O asfalto em si não é algo tão ruim – desde que seja sombreado.

A cobertura vegetal é, do ponto de vista global e local, um regulador climático fundamental do planeta. O planejamento dessa cobertura – tanto pelo setor privado, no projeto arquitetônico e paisagístico de uma obra, quanto pelo setor público – é importantíssimo, dada a sua influência, positiva ou negativa, nas condições gerais.

Os solos abertos associados à vegetação regulam o balanço hídrico e energético resultando em superfícies mais frias. O conjunto favorece a absorção e a infiltração de água (o que evita enchentes), o sombreamento e a evaporação controlada. Em conseqüência, o conforto térmico e a eficiência energética fazem diminuir a necessidade de resfriamento artificial. Problemas – e soluções – urbanos que não se restringem aos limites da porta do edifício e ao ambiente externo.

Em escala regional, a capacidade da vegetação de transformar grandes partes da radiação solar em vapor d’água pode gerar maior fração de calor latente dispersível, em vez de calor sensível. A vegetação absorve, filtra, retém e armazena todos os impactos naturais e também aqueles gerados pelo homem e danosos para nós mesmos. Entre esses impactos podemos citar a fortíssima radiação solar, as tempestades, o barulho, o CO² e outras emissões – todos presentes em abundância nas grandes cidades tropicais. Sem esquecer todo o ar respirado, desde sempre, pela humanidade.

Ainda não existe nenhuma solução técnica e altamente capaz de substituir e garantir as mesmas funções da vegetação viva, com milhões de metros quadrados de área (ou seja, de massa) foliar. Mas existem tentativas de substituição parcial.

Um exemplo interessante é o projeto Three Air Trees (Três Árvores Aéreas), criado pelo escritório Ecossistema Urbano, que inventou réplicas de árvores – denominadas “próteses” – que evaporam a água e resfriam o meio ambiente urbano, tal como uma árvore verdadeira, sombreando o espaço público da cidade de Vallecas na Espanha.
Outra referência importante é o conceito da Expo’92 em Sevilha, desenvolvido pelo escritório Site Arquitetos, que incorporou vegetação própria junto com pulverizadores de água para aumentar a taxa de evaporação e criar sombra capaz de gerar qualidade no espaço público.

O trinômio sOcioeconômico-ambiental urbano
As atuais transformações do tecido urbano de São Paulo trazem maciças contradições socioeconômico-ambientais. Há, por exemplo, uma alta densidade construída em contrapartida a uma diminuição crescente da população em regiões centrais, abandonadas por causa da perda de qualidade, embora, ao contrário da periferia, apresentem boa oferta de transporte público.

Se, por um lado, tem-se a degradação do ambiente público, por outro, se nota a sofisticação dos espaços restritos e privados (condomínios fechados e shopping centers), verdes ilhas com “clima de oásis”, circundadas por mares aquecidos, espaços de passagem ressecados, empobrecidos, ameaçadores e cada vez mais próximos.

Outro ponto a ser ressaltado, a reforçar a degradação do espaço público, é a utilização privilegiada do transporte individual, conceito fundamental do Modernismo e restrito a cerca de 20% da população paulistana. Tudo leva a crer que a infra-estrutura sem o mínimo de planejamento não permite boa integração com o meio ambiente urbano.

No conceito tradicional de construção das cidades, a vegetação quase sempre foi percebida como desperdício de espaço, sem, portanto, nenhum valor econômico. Recentemente, essa noção começou a mudar. O verde está se tornando – talvez pela primeira vez na história da humanidade – elemento da moda e excelente argumento de venda, o que traz, não deixa se ser irônico, certos benefícios para a cidade inteira.

Integração da vegetação na arquitetura, como ação de interesse público e privado
Pequenos oásis de contemplação urbana, ligadas aos negócios, ao bem-estar e à qualidade climática em meio ao caos desordenado e asfaltado. É assim que deveríamos caminhar em direção a novos conceitos. Se abríssemos mão do isolamento em favor de uma planejada abertura para o bem público, a vida nas grandes cidades poderia se tornar um verdadeiro paraíso. A idéia não é totalmente nova e vários exemplos podem ser vistos em Cingapura, cidade tropical como muitas das metrópoles brasileiras.

Os edifícios e suas áreas livres, na era da sustentabilidade, não podem mais ser vistos simplesmente como objetos solitários, isolados e fechados. É importante enxergá-los integrados à cidade, à paisagem urbana (e ao meio ambiente urbano) e ao mundo. Interagindo com o planeta em relação recíproca, como partes de um mesmo organismo.

Para uma boa integração do privado e do público, a árvore deve ser vista não mais como objeto isolado, vazio e perdido no meio ambiente urbano, mas como elemento que pode melhorar e diminuir os impactos sócio-ambientais do edifício graças à sua sombra e ao seu entorno no mundo – e vice-versa. O desenho da fachada (envelope da edificação), como separação e interface entre o público e o privado, torna-se crucial para o desenvolvimento sustentável do espaço urbano.

Principalmente no exterior, a unissonância com a natureza e o lugar é considerada como uma das particularidades mais marcantes da arquitetura brasileira. No Brasil, existem de fato abordagens muito interessantes, mas poucas obras construídas nessa linha de pensamento, que busca a mais profunda integração da construção, da arte e da natureza, do público e do privado.

Niemeyer, mesmo aos 100 anos, ainda procura o natural nas formas arqueadas, femininas e montanhosas. Mas essa busca não se estende às matérias-primas que utiliza. Grande oportunidade para Burle Marx criar um estilo próprio de construção tropical, mundialmente reconhecido e fortemente interligado às obras de Niemeyer, no qual se vale de exuberante vegetação tropical.

Lina Bo Bardi também procurou a mais profunda integração da arquitetura com a natureza, à que chamou de “binômino”, e percebeu a vegetação como uma das mais sutis substâncias na sua arquitetura. Lina Bo levou em conta as transformações naturais e suas inevitáveis conseqüências, seu próprio processo de envelhecimento corporal e estético. Vilanova Artigas desenvolveu em sua arquitetura aspectos associados à integração visual e climática com o meio circundante, criando prédios públicos sem portas, caso do próprio edifício da FAUUSP.

Hoje imperam na paisagem urbana paulistana as mais “novas” (embora vencidas) visões cristalizadas e importadas, principalmente dos Estados Unidos, sem nenhuma adaptação ao clima e à cultura brasileira. Em função da abundância de energia de baixo custo utilizada para resfriamento e de uma auto-imagem corporativa e globalizante, a arquitetura brasileira contemporânea tornou-se difusora do chamado conceito “Ice-T”: o paradoxal princípio de aquecer um líquido para depois resfriá-lo. Revela-se, assim, no Brasil atual, o elo perdido entre o paisagismo público e a arquitetura privada, entre a natureza cuidada e o homem globalizado e urbanóide.

Recentemente, novos conceitos foram lançados por vários escritórios de arquitetura, entre esses Tryptique, Baptista, Haussmann & Spangenberg, e Kogan, os quais levam em consideração o “enverdecimento” dos edifícios como novo valor estético e benefício econômico. Esses projetos, ainda não construídos, alinham-se com clareza a conceitos desenvolvidos em todo o mundo: na Europa, por Piano, Foster, Rogers, Herzog & DeMeuron, Hundertwasser, Gaudí; na América do Norte, pelo site Arquitetos; pelos argentinos Ambasz e Wright, por Buckminster-Fuller; na Ásia por Yeang e na África por Michael Pearce.

Ainda há aqueles que acham que a arquitetura contemporânea (ainda moderna?) não deveria mudar à mercê da necessidade de causar menos impacto ambiental. E que fachadas e telhados verdes, placas fotovoltaicas e painéis para geração de água quente não poderiam ser considerados elementos do desenho arquitetônico. Estaremos com medo de mudanças?

Este texto tenta mostrar que é exatamente aqui, na mudança de paradigma do desenho, que se encontra uma oportunidade para a criação de uma nova arquitetura tropical que, sem ser nostálgica, leva em conta o que havia de verdadeiramente bom “nos bons e velhos tempos”. Uma arquitetura que, talvez, poderá ser chamada de “retroinovação”.

Jörg Spangenberg é arquiteto graduado na Alemanha com mestrado pela PUC-Rio. Fez estágio no escritório de Oscar Niemeyer, no Rio Janeiro, e está doutorando pela Bauhaus em convênio com a USP; subsidiado pela Holcim Foundation for Sustainable Construction. É consultor de projetos sustentáveis e tem trabalhos desenvolvidos no Brasil e no exterior.

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