Arquivo da categoria: Benefícios | Telhado Verde

Artigos, notícias e informações que mostram como um telhado verde pode transformar sua casa, seu bairro e sua cidade.

Pic nic no telhado

Pic-nic no telhado verde

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Além dos benefícios técnicos (p.ex. maior durabilidade da camada de impermeabilização) e de desempenho (conforto térmico, redução de enxurradas, geração de umidade relativa, isolamento acústico) um telhado verde apresenta outras vantagens em relação aos telhados e coberturas convencionais. Um aspecto pouco abordado é a criação de novos espaços de uso e convivência. São os telhados verdes de uso intensivo. Na imagem acima, nosso pic-nic no gramado sobre a laje, com a horta ao fundo – milho, tomate, alface, almeirão, batata, couve, morango, trigo, girassol, feijão, salsinha, cebolinha, manjericão, cenoura, morango, camomila, hortelã…

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Urbanismo paisagista: o desafio da implementação

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Com um número suficiente de projetos de telhado verde ou de drenagem profunda feitos por proprietários individuais, podemos tornar nossas cidades lugares mais agradáveis de se viver e mais compatíveis com os ecossistemas que elas integram.

Urbano versus rural, arquitetura versus paisagem, homem versus natureza – essas dicotomias de design parecem ter sido bem aproveitadas por profissionais. Não apenas são construtos intelectuais úteis que datam do tempo de Adão e Eva, mas também ferramentas regulatórias efetivas. Ao definir campos de autoridade de maneira compreensível, permitem que projetos complexos sejam financiados, aprovados e construídos de modo organizado.

Mas os praticantes do urbanismo paisagista questionam se essas distinções continuam a fazer sentido numa era de recursos limitados e ameaças ambientais, sugerindo que podemos criar abordagens mais sustentáveis ao desenvolvimento, enfatizando as relações entre sistemas ecológicos e construção urbana. E dizem que ninguém é mais bem equipado para destilar uma direção de design a partir desses padrões fluidos que os arquitetos paisagistas. Contudo, o reconhecimento das interconexões ambientais desafia não apenas a hierarquia usual do arquiteto no topo, mas também as linhas de propriedade e os setores regulatórios que definem como projetamos e construímos.

Chris Reed, fundador da Stoss Landscape Urbanism, de Boston, diz que não há escolha. “Precisamos fazer mais com menos. As cidades e os órgãos públicos têm sede de propostas que promovam agendas múltiplas. Espaços abertos flexíveis e produtivos que purifiquem água, gerem energia, estruturem o desenvolvimento, criem novos habitats e se adaptem às mudanças climáticas serão a única solução para administradores públicos que comandam verbas limitadas.” Mas Reed reconhece que converter ideias ousadas em realidades de construção viável exige um compromisso com a pesquisa e a experimentação, além de uma estrutura de governança que respalde propostas ambiciosas.

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Por baixo das formas fluídas e das paisagens pastorais da High Line em NY, há uma enorme quantidade de esgotos, tubulações, cabos e vigas que fazem tudo funcionar.

Para reforçar sua presença na academia e fora dela, o urbanismo paisagista desenvolveu uma linguagem evocativa para comunicar suas aspirações. E, como é o caso da maioria dos “ismos” da área do design, ele emprega uma família de formas para sugerir metaforicamente como essas aspirações podem ser implementadas. Curvas amplas, fios contínuos e planos dobrados representam o tipo de sistemas dinâmicos que os urbanistas paisagistas querem canalizar, com projetos icônicos como o High Line de Manhattan (um parque no West Side de Nova York criado sobre uma antiga linha de trem elevada) oferecendo visuais sedutores. Mas, sem o fluxo interminável de financiamento por parte da alta sociedade com que contou o High Line, podem os princípios de design integrado do urbanismo paisagista sobreviver num mundo em que é preciso apresentar resultados concretos?

Shauna Gillies-Smith, da Sociedade Americana de Arquitetos Paisagistas e da Ground Inc., empresa de paisagismo de Somerville, diz que uma série de melhorias incrementais pode somar-se e resultar em mudanças significativas, especialmente em ambientes urbanos densos. “Com um número suficiente de projetos de telhado verde ou de drenagem profunda feitos por proprietários individuais, podemos tornar nossas cidades lugares mais agradáveis de se viver e mais compatíveis com os ecossistemas que elas integram.” Mas ela ressalta que talvez sejam necessários incentivos de zoneamento ou subsídios monetários para chegar a um limiar crítico em que seja possível garantir um retorno público sobre investimentos do setor privado.

Para melhor ou para pior, burocracias tremendas se interpõem entre mesmo a mais benévola das visões e sua concretização. Numa democracia, é preciso apoio público para a adoção de iniciativas econômicas ou de desenvolvimento, e o público não fala com voz unificada. Os órgãos reguladores moderam os debates e procuram um terreno comum.

Ben Lynch, chefe de programa do Programa de Regulamentação de Vias Hídricas do Departamento de Proteção Ambiental do Massachusetts, lida diariamente com as exigências progressistas do Estado em relação à construção em áreas de frente para rios ou o mar. “Regulamentos e incentivos são ferramentas brutas”, ele admite. “Se o setor público quer que o setor privado pague por melhorias infraestruturais e quer que os atores privados não vão à falência, será um desafio manter a fidelidade à agenda paisagista, porque há tantas exigências que precisam ser levadas em conta simultaneamente.”

Embora a agenda paisagista esteja na vanguarda da política de uso da terra, muitas de suas aspirações estão enraizadas nas práticas padronizadas de engenheiros e burocratas. Fred Yalouris, diretor de arquitetura e design urbano do Projeto de Artéria/Túnel Central de Boston, o chamado “Big Dig”, diz que o projeto maciço de “sepultamento” de uma rodovia estava sintonizado com os preceitos do urbanismo paisagista. “Um quinto da verba de US$15 bilhões do projeto foi destinado à mitigação, desde a criação de 46 parques até mais de US$1 bilhão para o trânsito em massa. Nos livramos da rodovia elevada e enferrujada e plantamos mais de 20 mil árvores, além de hectares de gramados e jardins. Áreas não pavimentadas, para absorver a chuva, e agricultura urbana sempre podem ser acrescentados, como a cobertura de um bolo bastante sustentável.”

A linguagem inspiradora e as formas convincentes do urbanismo paisagista evocam de modo poético uma maneira mais sustentável de construir. Mas, para que possam ser implementados seus ideais formais e práticos, eles precisam ser atrelados a um conjunto de ferramentas mais prosaicas, como os códigos de construção, regras de zoneamento e cálculos de engenharia. Se quiserem que as soluções de design sustentável não se limitem ao corriqueiro, os criadores precisam trabalhar com cientistas, sociólogos e engenheiros, sem falar nos burocratas e contadores. A tendência a deixar que formas poéticas se tornem declarações isoladas corre o risco de deixar a cargo de outros o trabalho prosaico de efetuar transformações reais.

Autor: David Eisen
Arquiteto-chefe da Abbacus Architects
Publicado no Blog Brasil Post em 11/06/2014 a partir do artigo publicado originalmente pela Sociedade de Arquitetos de Boston.

Telhados verdes avançam, mas programas de incentivo precisam evoluir.

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Por Edilaine Felix em O Estado de São Paulo de 14/12/2013.

O conforto ambiental que vêm de cima

Telhados verdes são opção para reduzir a temperatura e aumentar umidade do ar em edificações; e ainda podem diminuir gastos

Elas podem ser feitas de pe- quenos jardins ou de áreas maiores com árvores de porte razoável e espelho d’água. Podem até mesmo abrigar pequenas hortas, como no topo do Shopping Eldorado, na zona oeste de São Paulo. Mas o fato é que as coberturas verdes no topo de edifícios reduzem a temperatura e aumentam a umidade do ar do local.

A conclusão é de um estudo que comparou um prédio que possui um “pequeno bosque” no seu topo, o edifício-sede da Prefeitura de São Paulo, o Conde Matarazzo, com o Edifício Mercantil/Finasa, que possui telhado de concreto. Ambos estão localizados no centro da capital paulista. O resultado do estudo do geógrafo e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Humberto Catuzzo faz parte da sua tese de doutorado: Telhado verde – impacto positivo na temperatura e umidade do ar.

“Analisadas a temperatura e a umidade relativa do ar, a primeira ficou 5,3 graus Celsius menos quente (na Prefeitura) em relação ao Mercantil e a segunda ficou 15,7% maior”, diz o geógrafo. O Matarazzo tem uma área de cobertura de dois mil metros quadrados, sendo que a área de jardineiras é de 484 m2.

O telhado verde da Prefeitura é denominado, segundo Catuzzo, de intensivo – composto por árvores e arbustos, grama permanente e exige alta manutenção. “Também é chamado de telhado jardim.”

O pesquisador explica que existem ainda outros dois tipos de telhado: o extensivo, com vegetação rasteira, geralmente gramíneas, e o classificado como semi-intensivo, constituído por gramíneas e arbustos. Na cobertura do Edifício Matarazzo há espécies arbóreas de porte médio a alto, nativas e exóticas, incluindo palmeiras e um espelho d’água com 30 m2, com carpas, informa a administração.

Segundo o geógrafo, os benefícios dessa cobertura são grandes, mas temperatura e umidade relativa do ar são os principais. Catuzzo também destaca que ela representa redução no gasto de energia, pois aumenta o conforto térmico interno da edificação, diminuindo o uso do aparelho de ar condicionado. Por fim, ele lembra: antes de ser instalado é necessário calcular se as estruturas suportarão o sobrepeso de um telhado verde.

No mercado. Apesar dos benefícios, esse tipo de cobertura é muito pouco utilizada pelo mercado imobiliário. A construtora e incorporado Even, no entanto, informa possuir mais de 30 empreendimentos com telhados verdes. “Nos nossos telhados priorizamos espécies de baixa manutenção. Por isso, trabalhamos mais com espécies diversas de suculentas”, diz o diretor executivo de sustentabilidade da empresa, Silvio Gava.

As suculentas são plantas com folhas gordas e cheias de líquido, que aguentam passar o dia todo sob o sol.

Gava conta que a Even utiliza essas coberturas principalmente em lajes que cobrem o pavimento térreo, guaritas e similares. “Elas reduzem bem a temperatura dos ambientes e, portanto, há uma economia de energia no uso de ar condicionado”, diz o diretor da Even.

“E também existe um fator estético, porque o visual das unidades se torna mais agradável, já que, em vez de lajes, há jardins”, acrescenta Gava.

Shopping center tem horta cultivada com lixo orgânico

Eldorado planeja ampliar a área de cultivo e ter plantas em toda a extensão do seu teto de 9.800 metros quadrados

O Shopping Eldorado, em Pi- nheiros, na zona oeste da capi- tal, tem uma horta de 2.500 me- tros quadrados em sua cobertu- ra de 9.800 m2.

No telhado são cultivados capim-cidreira, hortelã, erva do-ce, carquejo, malva, sálvia, alecrim, bálsamo e poejo, berinjela, jiló, cebola, pimentões, pimentas, salsinhas, alfaces, gengibre, tomates, manjericão, morango, pepino, abobrinha, gazânia e lavanda, que dão colorido e um cheiro agradável ao local.

Alimentação. “A ideia surgiu pela necessidade de diminuir o lixo orgânico produzido na praça de alimentação que chega a 300 toneladas de alimentos por mês”, afirma o gerente de operações do Shopping Eldorado e um dos idealizadores do projeto, Marcio Glasberg.

Todo esse resíduo orgânico é separado, passa por um sistema de compostagem, instalado no próprio shopping, e produz 14 toneladas de material por mês, que é utilizado para adubar as plantas da cobertura.

“Além do benefício de produzir alimentos, existe o ganho indireto de não ter o sol direto na laje, diminuindo o uso de energia (para refrigerar a área interna) e água.”

De acordo com Glasberg, em cinco anos o shopping center pretende estar com toda a sua cobertura tomada por área verde. “Teremos um jardim, com árvores.”

Projeto obriga edifícios a ter cobertura verde

O diretor executivo do Instituto Cidade Jardim, Sérgio Rocha, diz que é bom haver políticas públicas a respeito, mas é contra a obrigatoriedade. Ele se refere ao Projeto de Lei 1.703/11 do deputado Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP), em tramitação na Câmara Municipal de São Paulo e que obriga condomínios com mais de três andares a instalar telhados verdes em suas coberturas, “O projeto precisa ser melhor avaliado e pensar nos modelos e nos impactos para cada região. Deve haver políticas de incentivo”, afirma.

Para ele, é necessário avaliar o zoneamento da cidade para conhecer as áreas que sofrem mais com as enchentes e então aplicar políticas de acordo com cada região.

“O telhado verde traz mais benefícios para grandes áreas, locais próximos de rios e no entorno de morros, auxiliando na drenagem de água e reduzindo enchentes”, afirma.

Para o geólogo Humberto Catuzzo, as políticas públicas são fundamentais para a implantação de telhados verdes. “Em cidades da Europa e dos Estados Unidos, o poder local por meio de políticas públicas concedem incentivos financeiros para a implantação dos telhados, ou até mesmo redução na cobrança de impostos para quem implantá-los”, diz.

Permeável. Para Rocha, o telhado verde é uma ferramenta. “Ele converte uma área de concreto em permeável. Por isso, pensamos em uma tecnologia que leve em consideração a sustentabilidade, as enchentes e a energia”, diz.

Para entender mais sobre o funcionamento desses telhados, Rocha visitou a Europa, que tem, inclusive, políticas públicas para a implantação de coberturas verdes.

Hoje, o instituto conta com uma equipe de engenheiros, arquitetos e biólogos, que fazem uma análise estrutural do prédio para identificar qual o melhor tipo e telhado verde a ser aplicado no local. “Precisamos saber também se é para cultivo, ou para melhorar a drenagem.” Segundo Rocha, um estudo americano revelou que os impactos na temperatura e na umidade do ar em edifícios com telhados verdes podem variar de 7% a 70%, dependendo do tipo adotado. Os custos para instalação de um telhado verde podem variar conforme a tecnologia adotadas e os materiais utilizados, Em São Paulo, o preço do metro quadrado com montagem pode sair de R$ 150 até R$ 300.

 

Uma cidade sustentável pode começar pelo telhado.

Ecológico até o topo

Um sistema para ser considerado sustentável deveria acumular ao longo de sua vida útil mais energia do que a utilizada para produzi-lo. O mesmo se aplica a um produto. Tudo no mundo que utiliza produtos derivados de petróleo ‘des-sequestra’ o CO2 que estava armazenado a milhões de anos no fundo da Terra e devolve esse material para a atmosfera – aumentando o efeito estufa e agravando as mudanças climáticas.

Então o que fazer, se praticamente nada do que consumimos preenche os requisitos acima? Enquanto as questões do desmatamento e emissões de gases de efeito estufa não são solucionadas, nas cidades deveríamos priorizar na ADAPTAÇÃO dos eixos estruturais de consumo de (1) energia, (2) ar, (3) água e (4) alimento, e entender que é preciso modificar profundamente a infra-estrutura urbana para que esses fluxos sejam rearranjados, sejam menos vulneráveis e tenham um balanço menos negativo – quero dizer, a impermeabilização urbana, o efeito de ilhas de calor, abastecimento e o transporte rodoviário tem impacto fundamental no equilíbrio destes (e outros) eixos de sustentabilidade. Locação urbana, revestimentos/pavimentação, drenagem. Sim, o design ajuda a criar um projeto de cidade sustentável. Design pois devemos repensar que outras utilidades possíveis podemos dar as principais áreas causadoras de problemas nas cidades. Se o problema é a solução, então… qual a utilidade de um telhado?

A solução está em criar condições para a regeneração da vida diretamente na causa do problema – cobrir com vegetação o máximo de superfícies urbanas abandonadas (incluo aí qualquer telhado ou laje) para que ao invés de acumular calor e poeiras passem a participar positivamente no balanço do clima de uma região. Obviamente não imagino forma melhor para se começar a construir uma cidade sustentável do que cobrir com vegetação qualquer superfície exposta ao sol – energia que passa a ser convertida positivamente para a cidade. Pensando em um programa de bio-regeneração urbana, isso pode ser maximizado com a escolha de regiões chave, formando uma rede de ilhas / corredores de biodiversidade e zonas de retenção de enchurradas. Há espaços de difícil acesso que precisarão selecionar combinações de espécies de plantas que permitam uma cobertura vegetal ativa ao longo de todas as estações do ano, demandando o mínimo possível de água e energia para sua manutenção. E para ser sustentável a revegetação em grande escala nas cidades também deveria ser pensado para ser zero dependem de agrotóxicos e combustíveis fósseis para sua produção, armazenamento e distribuição.

- um único telhado verde extensivo (com menos de 9cm de estrutura de cultivo) e de médio porte (cerca de 200m2) armazena 7 mil litros de água e seqüestra aproximadamente 1 tonelada de CO2.

- o mesmo telhado verde em uma área de 10.000m2 de telhados verdes (um campo de futebol ou um supermercado) armazenaria 330 mil litros de água e retiraria da atmosfera cerca de 50 toneladas de CO2. Pensando-se em comida, esse telhado de supermercado pode produzir  3 safras de grãos por ano, com potencial para mais de 30 toneladas de trigo, arroz, milho, feijão. Além de hortaliças, verduras, legumes, etc.

A Prefeitura de São Paulo não possui dados sobre a área ocupada por telhados no município. Com base nas estimativas adotadas pela GBC Brasil, os telhados ocupariam 381 km2 – 25% da cidade de São Paulo, que tem uma aérea total de 1.523 km2. Assim, o uso de coberturas brancas poderia compensar cerca de 38 milhões de toneladas de gás carbônico ao ano (http://economia.ig.com.br/lei-do-telhado-branco-custara-cerca-de-r-380-milhoes-a-sao-paulo/n1597009588177.html). A mesma área cultivada com 38.100 ha de telhados verdes extensivos poderia sequestrar mais 2 milhões de toneladas de carbono, armazenar 12,5 milhões de metros cúbicos de água por evento de chuva, além de prover diversos outros serviços ambientais.

Obviamente a revegetação de cidades não terá um peso percentual relevante na redução das taxas de CO2 da atmosfera de todo o planeta, mas terá um papel de alta relevância na adaptação  e melhoria de de qualidade de vida nas cidades (p.ex. redução de enchentes, aumento de umidade relativa). Diversas cidades já estão implementando mecanismos para subsidiar a adoção de telhados verdes, como o selo Qualiverde no Rio de Janeiro (http://www2.rio.rj.gov.br/smu/compur/pdf/proposta_qualiverde.pdf).

Podemos pensar em superfícies com revestimentos vivos extensivos, que demandam baixíssimo gasto de energia para manutenção, consomem pouca água e podem ser cultivados sem agrotóxicos. Mas podemos pensar também em espaços verdes suspensos que funcionem realmente como praças, com espaços de contemplação e que regulam o clima de regiões e bairros inteiros na cidade. Podemos ainda ir além, com hortas domésticas em varandas, lajes e coberturas, o que abre a possibilidade de agricultura e horticultura intensiva DENTRO das cidades, nos próprios centros de distribuição, processamento e venda – um restaurante, um hospital ou um supermercado. E isso pode estar conectado a programas de coleta seletiva e compostagem, o que reduziria o acumulo de lixo nos aterros sanitários – lixões e ‘de quebra’ diminui a demanda de importações de fertilizantes.

Para a cuidar de um jardim do tamanho de uma cidade, vamos precisar de uma nova geração de jardineiros.

Telhados verdes podem dispensar o uso de ar condicionado.

Recurso, cuja origem está no paisagismo, transforma capacidade natural das plantas em ferramenta de equilíbrio térmico.

Horizonte desenhado por grandes edificações, solo forrado com concreto e escassez de áreas verdes – o cenário mais conhecido das metrópoles pode estar em vias de mudar com a popularização dos telhados verdes. O recurso inovador, originado de técnicas de paisagismo, transforma a capacidade natural das plantas de absorver gás carbônico e reter calor em ferramenta que trabalha para diminuir a temperatura do ambiente, além de contribuir para a diminuição da poluição do ar nos arredores da construção.

Estudos conduzidos pela EPA (Enviromental Protection Agency), órgão do governo americano para o meio ambiente, apontaram que a temperatura média no verão em um telhado verde pode ser registrada entre 33 e 48 graus, enquanto que, num telhado convencional, chega a atingir a marca de 76 graus.

A disseminação dos tetos verdes pode tornar o uso do ar condicionado obsoleto, pois a estrutura de vegetação que protege uma laje assume o papel de escudo contra o calor do verão tropical e reduz até 30% a temperatura dentro de uma casa, por exemplo. Durante o inverno, a estrutura funciona como isolante térmico ao impedir que o calor armazenado internamente seja liberado.

Mas antes de correr escada acima, é melhor ter em mente que construir um telhado verde envolve muito mais que o mero posicionamento de vasos num espaço vazio. De acordo com Paula Magaldi, paisagista paulistana e especialista na técnica, é preciso saber se o local é adequado para suportar o peso que será colocado por cima.

A impermeabilização é um ponto chave que, associado à maneira como será feita a drenagem e o escoamento da água, formam a lista de requisitos que uma edificação tem de preencher para receber os estratos e substratos de vegetação que vão formar a área verde.

Também não basta escolher as primeiras plantas da entrada do supermercado. Apesar de ainda vivermos num mundo onde a flora é vasta e variada, existem espécies que suportam mais incidência de luz que outras ou que precisam de mais manutenção.

O preço final da instalação e manutenção do teto verde, entretanto, depende de variáveis que vão desde o tamanho da área a ser coberta até o tipo de planta que será usada. Mas é possível estimar que os benefícios ecológicos que oferecem podem ser encarados também pelo viés financeiro. “O telhado verde é capaz de valorizar em até 20% o preço de um imóvel”, pontua a paisagista. Além disso, no médio prazo, será possível contar com uma conta de luz mensal mais amigável para o bolso.

Publicado originalmente em 11/11/11 na revista EXAME.

Casa ecológica: jardim sobe a escada e vai para o telhado

Publicado originalmente por Valdir Sanches no Diário do Comércio de São Paulo em novembro de 2010. Faça aqui o download do artigo original em PDF.Diario do Comercio nov10

Quando visita seus clientes, Sérgio Rocha se apresenta levando não uma convencional pasta na mão, mas uma caixa de plantas sobre o ombro. Como um chacareiro levaria sua cesta de verduras. A caixa é a alma de seu negócio. Ela pode dar conforto em uma casa, livrar um bairro de enchentes e ajudar a atmosfera global. O que Sérgio carrega é um módulo de telhado verde. O engenheiro agrônomo desenvolveu uma técnica própria para cobrir telhados com plantas. Em vez da laje bruta, ardendo ao sol, o frescor de um gramado e um canteiro de folhagens. A tal caixa sobre os ombros – o módulo – é de plástico e tem 40 centímetros por 50 centímetros, com 9 cm de altura. Reúne tudo o que se precisa para colocar plantas em telhados. Ela se encaixa a outras iguais, para cobrir a extensão desejada. Na parte de baixo existem copinhos que armazenam água. Acima deles vai o substrato (em lugar de terra), com cinco centímetros de altura: um preparado com argila e composto orgânico, como resíduos de cana. Aí são plantadas as mudas.

Raízes – As raízes das plantinhas penetram no substrato e chegam aos copinhos de água. “Comida” e água à vontade. Os copinhos têm furos para drenagem. Se cair um temporal, o excesso de água sai para canaletas da caixa e é levado para o sistema de escoamento do telhado (calhas, por exemplo). Uma das vantagens do substrato é pesar bem menos do que terra vegetal. Assim, fará menor pressão sobre o telhado em que o sistema for aplicado. Bem, e que plantas é possível ter? Até árvores como uma jabuticabeira, garante Sérgio Rocha. Mas o comum são plantinhas que chegam a 40 cm de altura. As mais indicadas são as chamadas suculentas. Elas armazenam água em suas folhas. Isso é importante, porque as condições dos telhados verdes com frequência se assemelham às dos desertos. Durante o dia, lá em cima, diretamente sob a inclemência do sol, pode haver temperaturas superiores a 40° C; à noite, pode cair para 11° C. Além disso, os lugares estão sujeitos a ventos intensos, geadas. E a secas. Nos períodos de seca (ou quando o proprietário se esquecer de regar), as plantinhas suculentas usam a água guardada em suas folhas. Mas há uma variedade de outras plantas indicadas, como folhagens de diversos tipos e grama. Entre estas, a grama amendoim (de folhas arredondadas) e a esmeralda, igual à dos campos de futebol. Nestes casos, não se pode descuidar da regadura, a ser feita a cada três ou quatro dias (um sistema de irrigação simples pode ser instalado, com torneira no térreo).

Árvores – Sérgio diz que o plantio de árvores, como a jabuticabeira, é possível com a criação de um canteiro. Ou uma técnica que consiste em concentrar mais terra sobre os módulos. Independente do tipo de planta, os telhados verdes exigem manutenção a cada seis meses. É preciso subir no telhado e ver se não surgiram plantas invasoras. Pássaros, morcegos, o vento, podem trazer sementes. Sérgio diz que já foram achadas sementes de árvores grandes, como figueira e embaúba. Os telhados verdes beneficiam as casas, porque servem como isolante térmico. Menos calor dentro de casa, mais economia com ventiladores e ar condicionado. No tocante ao bairro, à cidade, contribuem para a qualidade do ar, já que as plantas retém o carbono poluente e liberam oxigênio na atmosfera.

Efeito estufa – As plantinhas suculentas, diz Sérgio, retém 50 toneladas de carbono por hectare (10.000 metros quadrados). É uma boa contribuição para ajudar no combate ao aquecimento global, o vilão de nossos tempos. Os telhados verdes também colaboram na redução de enchentes. Retém a água da chuva, que vai sendo liberada aos poucos. Assim, deixam de despejar sobre o solo grandes volumes de água de uma vez, que se tornam tributários das inundações. Coberturas verdes em prédios surgiram em São Paulo como paisagismo. Na década de 1950, Burle Marx, memorável paisagista (1909- 1994), criou um jardim suspenso no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. Também há um grande jardim sobre o Edifício Conde Matarazzo, onde está instalada a Prefeitura, na esquina da Rua Líbero Badaró com o Viaduto do Chá. Os telhados verdes, como tal, são uma técnica antiga no exterior. “Mas os primeiros modelos levavam muita terra, eram pesados”, diz Sérgio. As técnicas modernas surgiram na Alemanha, em fins de 1960. Naquele país, 13,5 milhões de metros quadrados de verde cobrem 15% dos telhados (dados de 2001). O maior deles é o do Aeroporto de Frankfurt, com 45 mil m2 de verde – o que ajuda a reduzir o ruído dos aviões. Na Espanha, o maior teto verde do País é o do Banco Santander, na cidade do mesmo nome. No Brasil, estamos começando. Em todo caso, só o Instituto Cidade Jardim, empresa de Sérgio, instalou 6 mil metros quadrados em cidades de vários Estados brasileiros, em dois anos e meio de atividade.

Técnica permite horta suspensa

O telhado verde, com os módulos criados por Sérgio Rocha, tem três tipos. O básico, com mudas bem novas, uma semana a dez dias de plantio, por R$ 120 o metro quadrado. O premiun, com mudas adultas, dois meses de plantio, a R$ 170 o m2. E o gramado, com grama adulta, de um só padrão, a R$ 125 o m2. A esses valores devem-se acrescentar os custos da instalação, em média R$ 35 o m2. E o frete, que depende da distância a ser percorrida.

Horta – Além do telhado inteiro, há outras possibilidades. Pode-se comprar 1 m2 (cinco peças) de módulos vazios, para fazer uma pequena horta no quintal. Vão bem morango, alface, temperos. Basta encher os copinhos com água, e a parte de cima com terra. O metro quadrado custa R$ 60. Outra possibilidade é plantar grama. Neste caso, pode haver um tipo específico de serventia para quem tem cachorro em casa.

Por ora, os módulos não estão em lojas ou supermercados. Da mesma forma não há representante em São Paulo. A sede fica em Itu, a 92 quilômetros da Capital. Quem quiser comprar os módulos, ou todo o telhado verde, deve ligar para (11) 2429-4720 ou (11) 2715-0749 (é preciso usar o código da operadora).


A produção agrícola na própria cidade.

Prefeituras já estimulam o uso de áreas urbanas para o cultivo de hortaliças.

Por Pedro Moreira – publicado originalmente na seção Arquitetura do blog Nosso Mundo Sustentável

16/05/2011 06h14min

Enquanto ideias visionárias como plantações em prédios de 30 andares não são colocadas em prática, soluções menos imponentes ajudam a consolidar a ideia de que os grandes centros também têm de produzir o alimento necessário para o consumo de seus moradores. A agricultura urbana se vale do solo fértil – rico em resíduos – de terrenos baldios e espaços desocupados das cidades para o cultivo de hortaliças e frutas.

Conforme o professor de agroecologia na Escola Superior de Agronomia da USP Carlos Armênio Khatounian, esses produtos são mais perecíveis e difíceis de transportar por grandes distâncias. Além disso, precisam ser consumidos frescos e têm valor agregado elevado, o que acaba compensando o uso de uma área urbana para o plantio. Cabe ao poder público incentivar esse tipo de produção.

Khatounian cita o exemplo de Piracicaba – município com mais de 300 mil moradores no interior paulista – onde a prefeitura oferece isenção parcial de impostos para áreas ocupadas por hortaliças. A cidade tem mais de 70 hortas urbanas, o que a tornou autossuficiente em hortaliças folhosas, como alface e couve.

O plantio para o consumo individual, como no caso das fazendas de janela, em que as pessoas produzem alimentos nas aberturas dos apartamentos, e os jardins em sacadas também são alternativas conscientes à produção agrícola tradicional. Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUCRS, Márcio Rosa D’Avila acredita que as pequenas práticas são a semente para o debate sobre uma produção em maior escala dentro das cidades.

- A questão das fazendas verticais está relacionada ao conceito de como o homem se relaciona com o ambiente. Já temos discussões sobre o cultivo de alimentos em telhados verdes – completa D’Avila.

Cultivo de trigo no telhado.

Esse mês comemoramos 30 dias do início de nosso primeiro experimento com o cultivo de grãos em telhados. O objetivo é experimentar novos limites para produção de alimentos nas cidades, para as cidades – escolhemos o trigo para essa primeira experiência.

As variedades 22 e 26 da EMBRAPA prometem produções de até 6,5 toneladas de grãos por hectare. Isso significa que uma casa popular de 50 m2 (como a que estamos cultivando agora) pode produzir até 35kg de grãos em 120 dias. Pode parecer pouco, mas imagine só: que família com 4 ou 5 pessoas consome 35 kg de trigo em um ano? Se forem duas safras, serão 70 kilogramas de trigo. Se o cultivo fosse de feijão, seriam cerca de 15 kg por safra.

Agora, imagine o telhado de um hipermercado. Apenas o telhado do Wal-Mart em Barueri, com cerca de 30.000 m2, produziria cerca 21 toneladas e meia de grão de trigo por safra

. A cotação do trigo hoje é de R$ 27,33 / saca 60kg  – ou seja, em 120 dias um telhado desse tamanho poderia vender sua produção e faturar cerca de R$ 10.000,00.

É isso aí. Além de ajudar a evitar enchentes e reduzir a conta de ar condicionado, produzir alimentos em telhados pode ser também um bom negócio.

Para que a cobertura verde tenha realmente um papel de auxílio à sustentabilidade, que aspectos devem ser considerados? Qual o desempenho dessas coberturas ao longo do tempo?

Artigo publicado originalmente na revista Téchne número 162.

Por SÉRGIO ROCHA

Telhados verdes oferecem uma estratégia inteligente e de alto impacto para amenizar a aridez e os efeitos das mudanças do clima nas cidades modernas. Inúmeras cidades por todo o mundo já reconhecem esses serviços e oferecem incentivos fiscais e reduções de impostos, sinalizando mudanças de rumo no planejamento e reestruturação da infraestrutura urbana. Grandes obras públicas e privadas já caminham nessa direção. Para criar e manter esses novos ecossistemas em longo prazo, a composição da tecnologia de cultivo sobre áreas impermeáveis é fundamental – todos os componentes do telhado verde devem colaborar para seu desempenho ao longo do tempo em condições adversas: engenharia de drenagem, armazenamento de água, espaço/volume para crescimento de raízes, substrato leve e em proporções adequadas para que não seja necessária a reposição constante, seleção de plantas (um gramado consome pelo menos quatro vezes mais água do que algumas espécies de plantas suculentas).

Uma vez bem estabelecido, o telhado verde tem longa durabilidade. Um artigo publicado em maio deste ano na revista especializada norte-americana Ecological Engineering compara a performance a longo prazo de diversos telhados verdes construídos em Berlim desde 1880. O estudo comparou esses sistemas antigos aos sistemas modernos estabelecidos a partir da década de 1980. Segundo os autores, os telhados verdes modernos têm um desempenho muito superior aos sistemas antigos, devido às tecnologias aplicadas, havendo correlação positiva entre a capacidade de armazenamento de água do sistema e o índice de cobertura vegetal. Sistemas de armazenamento de água da chuva ajudam na eficiência do telhado verde, mas não excluem uma avaliação da necessidade de irrigação, que pode ser obrigatório para algumas espécies. Um plano mínimo de manutenção é recomendável.

Sérgio Rocha, engenheiro-agrônomo
diretor do Instituto Cidade Jardim

Enverdecimento Urbano: Uma Antítese ao Aquecimento

Artigo originalmente publicado na revista aU | Arquitetura e Urbanismo número 167.

POR JÖRG SPANGENBERG

Antítese da mata selvagem, a “selva de pedra” – construção humana, coletiva, artificial – revela em uma primeira vista a forte contradição entre a cidade e a natureza. De fato, a integração da natureza e da construção traz alguns problemas práticos, técnicos e estéticos. A vegetação protege. Mas também esconde, encobre, causa estragos. Não é à toa que, para um grande número de arquitetos, a natureza – e, na sua versão urbana, a vegetação – é impopular. Ela cria uma atmosfera suspeita, aumenta a sensação de risco, gera custos, coloca obstáculos às construções. A ponto de um vencedor do Pritzker, Paulo Mendes da Rocha, declarar que “a natureza é uma droga, não serve para nada, é um trambolho”, em entrevista à revista Caros Amigos.

A análise de temas contemporâneos e urgentes, como a sustentabilidade e o aquecimento global, abre um novo olhar sobre a paisagem urbana. Uma mudança de paradigma revela que os benefícios reais da vegetação ultrapassam os supostos problemas levantados. Se houver bom planejamento e eficiente gestão dos investimentos, os custos de manutenção de árvores em áreas urbanas serão muito inferiores aos benefícios econômicos que geram para todos. Sem descartar os crescentes benefícios climáticos que podem trazer no futuro.

Problemas ambientais e climáticos da Metrópole
O cientista inglês James Lovelock recentemente lançou um alerta aos povos que vivem em áreas tropicais do planeta. “Pelas minhas estimativas, a situação se tornará insuportável antes mesmo da metade do século. Lá pelo ano 2040, a maioria das regiões tropicais, incluindo praticamente todo o território brasileiro, será demasiadamente quente e seca”, disse ele à revista Veja, em 2006.

Torcendo para que Lovelock esteja enganado, os primeiros lugares a serem abandonados por conta das mudanças climáticas e da perda da qualidade de vida, serão as cidades. Núcleos da produção, berços da cultura urbana e das finanças. A sobreposição dos efeitos climáticos globais e locais transforma as cidades – sob o clima tropical – em verdadeiras “ilhas de calor”. E traz consigo, em seu ritmo cada vez mais acelerado, problemas ainda muito mais graves, tais como desconforto, desigualdade socioambiental, aumento de estresse térmico, aumento de consumo e dos custos de energia para o resfriamento de imóveis e de automóveis. Enfim, prejuízos crescentes para a economia e para o desenvolvimento (sustentável) das cidades localizadas em regiões de clima predominantemente quente.

Embora as áreas urbanas no Brasil representem apenas 2% do território nacional, mais de 80% dos brasileiros moram nesses gigantes hot spots. Dentro do município de São Paulo, as medições de temperatura do ar já mostram diferenças de até 12ºC entre o centro urbano e seu entorno rural distante. Isso significa o dobro do previsto nas mais pessimistas estimativas sobre as mudanças climáticas globais. Segundo estudo da Sociedade Brasileira de Meteorologia, divulgado em abril de 2007, a temperatura da cidade de São Paulo subiu, em quase um século, o triplo do observado na média mundial. O trabalho foi realizado a partir da análise de médias históricas anuais.

Causa local: o uso do solo
A construção desordenada de metrópoles, com materiais e geometrias não-adaptados segundo aspectos climáticos, trouxe um desequilíbrio imprevisto ao bem-estar urbano. A impermeabilização do solo em conjunto com o desmatamento resultou em um baixíssimo percentual de cobertura vegetal. Como conseqüência, ocorreu o aquecimento local das superfícies urbanas. O asfalto em si não é algo tão ruim – desde que seja sombreado.

A cobertura vegetal é, do ponto de vista global e local, um regulador climático fundamental do planeta. O planejamento dessa cobertura – tanto pelo setor privado, no projeto arquitetônico e paisagístico de uma obra, quanto pelo setor público – é importantíssimo, dada a sua influência, positiva ou negativa, nas condições gerais.

Os solos abertos associados à vegetação regulam o balanço hídrico e energético resultando em superfícies mais frias. O conjunto favorece a absorção e a infiltração de água (o que evita enchentes), o sombreamento e a evaporação controlada. Em conseqüência, o conforto térmico e a eficiência energética fazem diminuir a necessidade de resfriamento artificial. Problemas – e soluções – urbanos que não se restringem aos limites da porta do edifício e ao ambiente externo.

Em escala regional, a capacidade da vegetação de transformar grandes partes da radiação solar em vapor d’água pode gerar maior fração de calor latente dispersível, em vez de calor sensível. A vegetação absorve, filtra, retém e armazena todos os impactos naturais e também aqueles gerados pelo homem e danosos para nós mesmos. Entre esses impactos podemos citar a fortíssima radiação solar, as tempestades, o barulho, o CO² e outras emissões – todos presentes em abundância nas grandes cidades tropicais. Sem esquecer todo o ar respirado, desde sempre, pela humanidade.

Ainda não existe nenhuma solução técnica e altamente capaz de substituir e garantir as mesmas funções da vegetação viva, com milhões de metros quadrados de área (ou seja, de massa) foliar. Mas existem tentativas de substituição parcial.

Um exemplo interessante é o projeto Three Air Trees (Três Árvores Aéreas), criado pelo escritório Ecossistema Urbano, que inventou réplicas de árvores – denominadas “próteses” – que evaporam a água e resfriam o meio ambiente urbano, tal como uma árvore verdadeira, sombreando o espaço público da cidade de Vallecas na Espanha.
Outra referência importante é o conceito da Expo’92 em Sevilha, desenvolvido pelo escritório Site Arquitetos, que incorporou vegetação própria junto com pulverizadores de água para aumentar a taxa de evaporação e criar sombra capaz de gerar qualidade no espaço público.

O trinômio sOcioeconômico-ambiental urbano
As atuais transformações do tecido urbano de São Paulo trazem maciças contradições socioeconômico-ambientais. Há, por exemplo, uma alta densidade construída em contrapartida a uma diminuição crescente da população em regiões centrais, abandonadas por causa da perda de qualidade, embora, ao contrário da periferia, apresentem boa oferta de transporte público.

Se, por um lado, tem-se a degradação do ambiente público, por outro, se nota a sofisticação dos espaços restritos e privados (condomínios fechados e shopping centers), verdes ilhas com “clima de oásis”, circundadas por mares aquecidos, espaços de passagem ressecados, empobrecidos, ameaçadores e cada vez mais próximos.

Outro ponto a ser ressaltado, a reforçar a degradação do espaço público, é a utilização privilegiada do transporte individual, conceito fundamental do Modernismo e restrito a cerca de 20% da população paulistana. Tudo leva a crer que a infra-estrutura sem o mínimo de planejamento não permite boa integração com o meio ambiente urbano.

No conceito tradicional de construção das cidades, a vegetação quase sempre foi percebida como desperdício de espaço, sem, portanto, nenhum valor econômico. Recentemente, essa noção começou a mudar. O verde está se tornando – talvez pela primeira vez na história da humanidade – elemento da moda e excelente argumento de venda, o que traz, não deixa se ser irônico, certos benefícios para a cidade inteira.

Integração da vegetação na arquitetura, como ação de interesse público e privado
Pequenos oásis de contemplação urbana, ligadas aos negócios, ao bem-estar e à qualidade climática em meio ao caos desordenado e asfaltado. É assim que deveríamos caminhar em direção a novos conceitos. Se abríssemos mão do isolamento em favor de uma planejada abertura para o bem público, a vida nas grandes cidades poderia se tornar um verdadeiro paraíso. A idéia não é totalmente nova e vários exemplos podem ser vistos em Cingapura, cidade tropical como muitas das metrópoles brasileiras.

Os edifícios e suas áreas livres, na era da sustentabilidade, não podem mais ser vistos simplesmente como objetos solitários, isolados e fechados. É importante enxergá-los integrados à cidade, à paisagem urbana (e ao meio ambiente urbano) e ao mundo. Interagindo com o planeta em relação recíproca, como partes de um mesmo organismo.

Para uma boa integração do privado e do público, a árvore deve ser vista não mais como objeto isolado, vazio e perdido no meio ambiente urbano, mas como elemento que pode melhorar e diminuir os impactos sócio-ambientais do edifício graças à sua sombra e ao seu entorno no mundo – e vice-versa. O desenho da fachada (envelope da edificação), como separação e interface entre o público e o privado, torna-se crucial para o desenvolvimento sustentável do espaço urbano.

Principalmente no exterior, a unissonância com a natureza e o lugar é considerada como uma das particularidades mais marcantes da arquitetura brasileira. No Brasil, existem de fato abordagens muito interessantes, mas poucas obras construídas nessa linha de pensamento, que busca a mais profunda integração da construção, da arte e da natureza, do público e do privado.

Niemeyer, mesmo aos 100 anos, ainda procura o natural nas formas arqueadas, femininas e montanhosas. Mas essa busca não se estende às matérias-primas que utiliza. Grande oportunidade para Burle Marx criar um estilo próprio de construção tropical, mundialmente reconhecido e fortemente interligado às obras de Niemeyer, no qual se vale de exuberante vegetação tropical.

Lina Bo Bardi também procurou a mais profunda integração da arquitetura com a natureza, à que chamou de “binômino”, e percebeu a vegetação como uma das mais sutis substâncias na sua arquitetura. Lina Bo levou em conta as transformações naturais e suas inevitáveis conseqüências, seu próprio processo de envelhecimento corporal e estético. Vilanova Artigas desenvolveu em sua arquitetura aspectos associados à integração visual e climática com o meio circundante, criando prédios públicos sem portas, caso do próprio edifício da FAUUSP.

Hoje imperam na paisagem urbana paulistana as mais “novas” (embora vencidas) visões cristalizadas e importadas, principalmente dos Estados Unidos, sem nenhuma adaptação ao clima e à cultura brasileira. Em função da abundância de energia de baixo custo utilizada para resfriamento e de uma auto-imagem corporativa e globalizante, a arquitetura brasileira contemporânea tornou-se difusora do chamado conceito “Ice-T”: o paradoxal princípio de aquecer um líquido para depois resfriá-lo. Revela-se, assim, no Brasil atual, o elo perdido entre o paisagismo público e a arquitetura privada, entre a natureza cuidada e o homem globalizado e urbanóide.

Recentemente, novos conceitos foram lançados por vários escritórios de arquitetura, entre esses Tryptique, Baptista, Haussmann & Spangenberg, e Kogan, os quais levam em consideração o “enverdecimento” dos edifícios como novo valor estético e benefício econômico. Esses projetos, ainda não construídos, alinham-se com clareza a conceitos desenvolvidos em todo o mundo: na Europa, por Piano, Foster, Rogers, Herzog & DeMeuron, Hundertwasser, Gaudí; na América do Norte, pelo site Arquitetos; pelos argentinos Ambasz e Wright, por Buckminster-Fuller; na Ásia por Yeang e na África por Michael Pearce.

Ainda há aqueles que acham que a arquitetura contemporânea (ainda moderna?) não deveria mudar à mercê da necessidade de causar menos impacto ambiental. E que fachadas e telhados verdes, placas fotovoltaicas e painéis para geração de água quente não poderiam ser considerados elementos do desenho arquitetônico. Estaremos com medo de mudanças?

Este texto tenta mostrar que é exatamente aqui, na mudança de paradigma do desenho, que se encontra uma oportunidade para a criação de uma nova arquitetura tropical que, sem ser nostálgica, leva em conta o que havia de verdadeiramente bom “nos bons e velhos tempos”. Uma arquitetura que, talvez, poderá ser chamada de “retroinovação”.

Jörg Spangenberg é arquiteto graduado na Alemanha com mestrado pela PUC-Rio. Fez estágio no escritório de Oscar Niemeyer, no Rio Janeiro, e está doutorando pela Bauhaus em convênio com a USP; subsidiado pela Holcim Foundation for Sustainable Construction. É consultor de projetos sustentáveis e tem trabalhos desenvolvidos no Brasil e no exterior.